Renato Abreu acertou com o Santos até o fim da temporada, e não há quem tenha ficado mais feliz com o acordo do que Júlio Abreu, 77 anos, pai do jogador e santista fanático. Porém, ele ainda vai demorar para ver seu filho em campo com a camisa do Peixe. Sem jogar desde junho, pelo Flamengo, o meia vinha fazendo apenas trabalhos físicos em uma academia, e deve ficar à disposição do técnico Claudinei Oliveira em dez dias.
Como profissional, essa será a primeira passagem dele pelo clube do coração. Mas em 1994, com vontade de tornar-se jogador de futebol e incentivado pelos familiares, foi levado por seu pai para fazer um teste no Santos. Após ser aprovado, Renato Abreu sofreu por conta da distância de São Paulo, e depois acabou reprovado em outro teste no ano seguinte. Ele deixou de lado o sonho de jogar pelo clube de coração, mas continuou acompanhando o Peixe, sempre ao lado do pai, nas arquibancadas da Vila Belmiro ou do Pacaembu.
Antes de transformar o desejo da família em realidade, o meia passou por oito clubes. O último foi o Flamengo, no qual foi demitido no dia 17 de junho. Renato Abreu, porém, só conseguiu a liminar na Justiça para defender outra equipe em 8 de agosto. Por isso, ele chega ao Santos sem custos e com um salário que agradou à diretoria alvinegra. Agora, com quatro meses para mostrar serviço no Peixe, o meia quer aproveitar a oportunidade e dar alegrias a seu pai e a toda a torcida santista.
O acordo entre clube e jogador foi fechado nos últimos dias, mas apenas nesta sexta-feira o meia foi ao CT Rei Pelé para fazer os últimos exames e assinar o contrato. Antes disso, o LANCE!Net falou com ele, e a entrevista exclusiva você confere abaixo.
O que mais pesou para o acerto com o Santos?
Acho que foi tudo, é um grande clube e eu sempre sonhei em jogar pelo Santos. Minha família inteira é santista, e isso é um sonho para todos os meus familiares. E também é um objetivo pessoal para mim, porque eu passei no teste em 1994, mas era complicado ir treinar. Meu pai queria que eu morasse em um alojamento na cidade para facilitar, mas não deu certo e em outro teste, no ano seguinte, não passei. Então, depois de 19 anos eu estou voltando para sentir essa emoção de torcedor, o que eu sentia quando era garoto.
Costumava ir ao estádio?
Sempre ia com meu pai, quase toda semana. Junto com ele, já passei muito aperto, vibrações e alegrias.
Qual é o jogo inesquecível?
Não tem apenas uma partida, tem algumas. A campanha do Campeonato Brasileiro de 1995 (quando o Santos foi vice-campeão) eu acompanhei bem de perto. Todos os jogos dessa campanha são inesquecíveis. No segundo jogo da semifinal contra o Fluminense (Peixe venceu por 5 a 2 e se classificou após ter perdido na ida por 4 a 1) eu e meu pai não conseguimos entrar no Pacaembu. Ficamos olhando de fora para ver se iria dar para entrar, mas quando vimos que não dava para pegar um ingresso, fomos correndo para casa. Tirei minha camisa do Santos e fui o caminho inteiro com ela pendurada pela janela do carro (risos), foi coisa de louco esse dia.
Como a sua família recebeu a notícia de que você iria acertar contrato com o Santos?
Na hora que já estava tudo certo, liguei para eles e todos meus familiares ficaram felizes demais. Eles sabem do meu esforço, o que eu lutei para estar aqui agora, estão todos muito felizes. Meu pai está radiante, numa alegria só.
Seu pai é o mais fanático dos seus familiares?
Ah, ele é muito fanático. Ele fica louco quando o Santos joga, sempre assiste aos jogos. Agora, então, não vai perder um. Na época que eu jogava no Corinthians, eu dava as camisas e ele não vestia (risos). Ele até ia para o estádio ver o jogo, mas não chegava perto das camisas.
Como ele reagiu na goleada para o Barcelona?
Ele deve ter ficado maluco da vida. O problema é que todo mundo sabe que ele é santista fanático e fica zoando. Ele se tranca em casa e fica sem falar com ninguém (risos), mas o pessoal fica lá na porta querendo provocá-lo.
E como você vê essa possibilidade de atuar pelo Santos?
É um privilégio muito grande para mim, sempre sonhei em jogar no Santos, clube que eu sempre torci, que minha família torce. Estou muito feliz com essa oportunidade.
Mas o contrato é de apenas quatro meses...
É um contrato curto, porém a vontade de ficar é muito grande. Em momento algum vou deixar de me esforçar, de dar meu máximo, quero estender esse contrato, vou aproveitar essa chance.
Você chega em um momento conturbado. Como analisa essa atual situação?
O Santos está acostumado a vencer e no momento passa por uma dificuldade. Altos e baixos no campeonato todo time vai sofrer e não podemos esquecer que o Santos tem dois jogos a menos. Se ganhar esses jogos, vai lá para cima da tabela.
Como está a sua forma física? Espera ficar à disposição do Claudinei em quanto tempo?
Eu fiquei esse tempo todo parado, mas vinha treinando na academia. É claro que não é a mesma coisa que um treino no campo, com bola. Eu trabalhei bastante a parte aeróbica e a parte física, estou bem. Nesse tempo, eu tive uma inflamação no olho e precisei ficar parado, sem treinar alguns dias, mas consegui manter a minha forma física. Acredito que a situação que eu estou, em um dez dias eu já posso ficar à disposição. Não tenho problema de ganhar ou perder peso, então é só reeducar a alimentação e, com os treinamentos, vou pegando o ritmo.
Qual foi o papel do Zinho na negociação com o Santos? Ele já te conhecia do Flamengo. Chegaram a conversar?
As conversas começaram até antes de o Zinho assumir a gerência de futebol do Santos e acabei nem conversando com ele. Mas eu fico muito feliz de eu ter recebido o aval, tanto dele quanto da comissão técnica, que confiam no meu trabalho. E essa confiança é muito boa e eu vou ter essa relação com ele. Todas as pessoas que eu tive contato por propostas já haviam trabalhado comigo antes, tanto treinador quanto dirigente, e isso é gratificante para mim, porque mostra que as pessoas confiam no meu trabalho. Esse carinho que o Zinho tem por mim eu vou retribuir dentro de campo da melhor maneira possível.
O que a torcida santista pode esperar de você?
O desempenho que eu sempre mostrei nas outras equipes. Não tenho como prometer títulos e isso é uma frase que eu sempre levo comigo. Costumo dizer que não prometo uma vitória a cada jogo, mas prometo me empenhar o máximo possível. Essa é a minha característica: trabalhar bastante, com muito esforço até o último minuto.
Como acha que pode ajudar mais essa equipe? Com a experiência para a garotada?
Independentemente de jogar ou não, de alguma forma eu quero ajudar o Santos. Vou me esforçar nos treinos e tentar achar minha oportunidade dentro da equipe, mas sei que tem jogadores qualificados brigando por posições. Vou passar a minha experiência para os mais jovens, mas também sei que tem outros jogadores experientes no elenco. Vou ajudar da forma que der